quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Vestuário – um grupo elegante


Vestuário – um grupo elegante


No princípio, por orientação do meu pai, bem acolhida por todos, o Big Brasa usava fardamentos, isto é, mantinha grupos de roupas que às vezes substituía durante as próprias festas. Houve uma noite, em Umirim, que o Conjunto mudou de roupa quatro vezes, impressionando a todos os presentes. Isso contribuiu para formar uma falsa idéia, também em Fortaleza, de que o conjunto era composto por pessoas ricas.
O Big Brasa procurava acompanhar a moda jovem. Se era camisa de gola-rolê, tudo bem, malha, calça estreita, cabelos longos, tudo. As calças “Lee” e os tênis também faziam parte efetivamente de nosso guarda-roupa. Fazíamos questão, além de ensaiar bastante para fazer o melhor, procurávamos também manter boa aparência, pois isso para nós era fundamental.
O Mestre Alberto não gostava de barba malfeita ou por fazer, ou então cabelo grande. Segundo ele, dava um aspecto de sujeira e não era legal. No começo do conjunto, quando ainda nos acompanhava, pediu para o Lucius tirar sua barba, que estava grande. O Lucius, com muito respeito, educação e diplomacia, qualidades que sempre possuiu, disse-lhe que iria satisfazer a sua vontade, mas que aquilo não tinha nada a ver. Hoje em dia o Mestre Alberto reconhece que estava errado e aquilo “não tinha nada a ver” realmente.
Houve o tempo, pelos anos 69, 70 e 71, das calças boca-de-sino. Era moda total e quem não as usasse não estava com nada. Nas calças “Lee”, que foram os primeiros jeans a surgir, nós tínhamos que arranjar umas tiras e mandar emendar na parte de baixo para alargá-las e assim poder ficar “na crista da onda”.
Na coluna do jornal O Estado, intitulada “Alta Roda”, o seguinte comentário sobre o Conjunto: “O Big Brasa, aqui da terra, talvez seja o único conjunto que não aderiu à moda cabeluda. Seus componentes se apresentam elegantemente com cabelos cortados à la homens sérios!”.
Nos bailes de 15 Anos e nos de Formatura, bem como em outras funções mais especiais, usávamos terno e gravata ou blazers. O Big Brasa sempre se portou adequadamente no que se refere ao visual.


João Ribeiro da Silva Neto
Do livro "O Big Brasa e minha vida musical" (1999)

Os ensaios do Big Brasa – sempre no “Quartel General”


Os ensaios do Big Brasa – sempre no
“Quartel General”


Durante os ensaios, quando esses se realizavam na garagem de nossa casa, o pessoal que passava na rua sempre parava para olhar. Hoje, passados 30 anos, de vez em quando algumas pessoas ainda associam e fazem referências ao endereço, dizendo:
- É ali, perto do Big Brasa?
 
Muitas vezes passávamos dias inteiros plenamente envolvidos com a música. Consequentemente toda a alimentação do pessoal ficava por conta de meus pais. Naquele tempo eu não percebia nada disso. Não porque não me importasse, mas com certeza pela falta de experiência, natural da juventude. Nunca tinha pelo menos imaginado o custo de um dia de ensaio para todo mundo, em se tratando de alimentação e trabalho por parte de todos aqueles que se envolviam, particularmente de minha mãe, que se preocupava para não faltar nada para o grupo. Somente alguns anos depois é que descobri que tudo aquilo devia pesar no orçamento de meus pais, além de ser trabalhoso, pois envolvia a participação direta e indireta de todos de casa, no desejo de atender bem e de que o conjunto se firmasse.

Um detalhe importante, merecedor de registro, é o fato de que os meus pais preferiam que a turma toda se reunisse em nossa casa, nos cafés das manhãs, depois das viagens, objetivando manter a unidade do grupo. Muitas e muitas vezes chegamos de viagem e a mesa estava pronta, com café, pão, bolos, suco de frutas e tudo mais que a mamãe conseguisse preparar. Tal fato pode hoje ser analisado por dois aspectos: o da segurança, se é que eles queriam observar como o pessoal tinha retornado; e também o de proporcionar uma reposição de energia necessária a jovens de nossa idade, em vista do sacrifício de uma noite inteira sem dormir e com alimentação muitas vezes precária.


João Ribeiro da Silva Neto
Do livro "O Big Brasa e minha vida musical" (1999)

O desejo da profissionalização


O desejo da profissionalização


 
Tão logo que possível regularizamos nossa situação junto à Ordem dos Músicos do Brasil, Secção do Ceará e com o Sindicato dos Músicos do Ceará. Tudo providenciado pelo papai, pois nós mesmos só queríamos saber de tocar. Aliás, hoje vejo que isso é perfeitamente normal. Na adolescência é difícil ver algum jovem preocupado com os aspectos legais, burocráticos e coisas do gênero. O Registro do nome “Big Brasa” foi feito no Cartório de Registro de Títulos e Documentos de Fortaleza. Inicialmente todos os músicos tinham carteiras provisórias. Depois, com a devida habilitação, receberam as carteiras profissionais definitivas. Ao longo da existência do Conjunto outros músicos participaram com carteiras provisórias. Mas todo mundo tinha que estar devidamente regularizado.

CONTRATOS E HORÁRIOS

Quando o Big Brasa foi registrado oficialmente e todos os seus músicos foram legalizados frente à Ordem dos Músicos do Brasil, Secção do Ceará, bem como junto ao Sindicato dos Músicos, todos nossos contratos passaram a ser devidamente registrados. Inúmeras vezes - é importante lembrar - minha mãe, Dona Zisile, como a chamavam, se deslocou para a Ordem e Sindicato para registrar nossos contratos.

Mandamos fazer um papel timbrado para os contratos do Big Brasa, de modo a facilitar seu preenchimento. Esse formulário continha cláusulas relativas ao contratante, ao tempo de duração do evento, à forma de pagamento, preço da hora de prorrogação e a relação dos músicos do conjunto, com seus respectivos números de carteiras profissionais da OMB ou licenças temporárias. Tinha que ser registrado em cinco vias.

No que se refere ao cumprimento desses contratos e dos horários, o Big Brasa era muito caprichoso. Eu próprio fazia questão de chegar ao local dos eventos bem antes, para acompanhar e instalar todo o equipamento, afinar o instrumental, testar os amplificadores, fazer a distribuição do som de maneira adequada ao ambiente etc. Após tudo isso sempre mantinha contato com o contratante ou responsável no sentido de dizer que tudo estava em ordem e pronto para o início no horário determinado.

Foi um dos primeiros conjuntos que começaram a tocar apenas bailes de quatro horas de duração em Fortaleza, com meia hora de intervalo. Os outros conjuntos tocavam festas de cinco horas. Mas isso, enfatizo, somente na capital porque no interior do Estado a coisa pegava. Tínhamos que enfrentar verdadeiras batalhas. Festas de cinco, seis e até sete horas de duração, quando havia prorrogações. A legislação específica estabelece que os músicos devem tocar no máximo 45 minutos, com intervalo de 15 minutos por cada hora. Mas no Ceará esse dispositivo nunca foi cumprido.

Em uma ocasião, chegamos ao ponto de deixar de fazer um contrato financeiramente compensador porque já havíamos firmado outro compromisso, para tocar de graça, a título promocional. Responsabilidade não é para qualquer um...

PROFISSIONALISMO - UMA PALAVRA FUNDAMENTAL

Em qualquer trabalho, para que se obtenha pleno êxito e destaque, o profissionalismo tem que existir. Dentro dos princípios que regem um bom profissional, se encaixam diversos aspectos, como responsabilidade, habilidade naquilo que executa (que é conseguida através do estudo e do trabalho), respeito aos companheiros de profissão, coleguismo, disciplina e perseverança nos objetivos, entre outros.

No caso do músico, especificamente, isso tudo deve ser multiplicado por dois, ou seja, o esforço tem que ser duplicado, para superar aquela imagem de que todo artista é relaxado, desligado, “lunático” e até mesmo alienado.

Para mencionar um simples exemplo, uma vez fui tachado pejorativamente de “aquele guitarrista”, pela mãe de uma namorada. Não deixei por menos, conversei demoradamente com aquela senhora, de modo que ela soubesse que estava falando com um cara sério, de boa família e de bons princípios. E através de meus procedimentos consegui que ela e seus familiares modificassem o conceito que faziam sobre mim, pelo fato de ser músico.

Por esses e outros fatores, é que formulei uma proposta de trabalho para o exercício de minhas funções profissionais, de modo a tentar, de todas as maneiras possíveis, desfazer essa imagem negativa, que o músico ainda possui, para uma parcela da população. Tarefa difícil, pelo preconceito existente com a profissão de músico, mas não impossível, pois consegui fazer a minha parte, de manter a dignidade da profissão e lutar contra o preconceito.

João Ribeiro da Silva Neto
Do livro "O Big Brasa e minha vida musical" (1999)

Fortaleza e os clubes da época


Fortaleza e os clubes da época


É importante dizer que nos anos 60 as diversões da vida noturna de Fortaleza se caracterizavam por bailes em clubes, diferentemente do que ocorre hoje em dia, com os mega-shows em casa de espetáculos de grande porte. Quem viveu os “Anos Dourados” certamente tem saudades das festas desse período.

Quem não se lembra dos preparativos que fazíamos para ir a alguma festa e de como os conjuntos musicais eram mais valorizados? E dos festivais, sempre muito freqüentados, as paqueras, a dança colada? Para nós músicos não era muito fácil, pois na maioria das vezes estávamos trabalhando nos finais de semana. Em nosso caso, quando o Big Brasa tinha folga nos contratos, saíamos de Messejana para nos divertir um pouco em algum clube. Entretanto, antes de nossa turma completar dezoito anos e poder dirigir, tínhamos que chamar um carro de praça, normalmente uma rural, para que nos conduzisse até o clube e voltasse na madrugada para nos trazer de volta para Messejana.    

Para se ter uma idéia do que rolava nas noites de Fortaleza, segue uma relação dos clubes que existiam na época, em ordem alfabética, nos quais o Big Brasa atuou, por várias vezes.

O Balneário Clube de Messejana, a Sociedade Bairro de Fátima, o Clube de Regatas Barra do Ceará. Mais adiante o Iracema, o Líbano, o Iate Clube de Fortaleza, o Ideal Clube, o Náutico Atlético Cearense, o América Futebol Clube, o CRA - Clube Recreativo da Aerolândia, a COFEBA (Colônia de Férias dos Funcionários do Bento Alves), o Recreio dos Funcionários, o Clube General Sampaio, o Vila União, o Massapeense, a Associação Atlética do Banco do Brasil (AABB), o Clube dos Diários, o Clube do Jornal O POVO (Messejana), o Clube da Caixa Econômica, o Maguari e o Memphis Clube, de Antônio Bezerra.

O BALNEÁRIO CLUBE DE MESSEJANA

Localizado às margens da Lagoa de Messejana, na qual, segundo a lenda, e o escritor José de Alencar, Iracema, a “virgem dos lábios de mel”, tomava banho e saía correndo até a Praia de Iracema, chegando a seu destino ainda com os cabelos molhados, tal a sua rapidez.

O Balneário Clube de Messejana tinha uma extensa área verde ao redor do salão, bem arborizada, formando um espaço muito agradável para seus freqüentadores. O clube possuía uma arquitetura simples, sendo amplo e bem estruturado, no que se refere ao salão de dança e palco. Deixava muito a desejar pela precariedade de suas instalações de secretaria, bar e da própria fachada.

A vista do Balneário era muito bonita, tendo como cenário a belíssima Lagoa de Messejana, que às tardes nos proporcionava um pôr-do-sol magnífico, com cintilantes reflexos em suas águas. Nas manhãs dos sábados e domingos, podíamos ver algumas velozes lanchas, circulando a lagoa, em passeios que deviam ser muito agradáveis. Naquela época, como ainda hoje, aquilo era privilégio de gente rica.

Nossa turma freqüentava o Balneário para jogar pingue-pongue, tomar banho de lagoa, jogar bola, paquerar e dançar nas tertúlias. Praticamente toda a pequena comunidade de Messejana se encontrava no Balneário. Todo mundo se conhecia. Vivemos, pode-se dizer, a fase áurea do Balneário de Messejana.

As pessoas de “elite” e o preconceito

Messejana, como também Fortaleza nos anos 60, tinha algumas famílias tradicionais que se sentiam superiores às demais. Como exemplo o Balneário Clube de Messejana, às margens da lagoa de mesmo nome, que foi por muito tempo um clube preconceituoso onde só deveria freqüentar pessoas tidas como de “boa linhagem”.

Pelo Balneário passaram ótimas orquestras, oriundas de outras regiões do País. Em todas as festividades os grupos tinham que atender as preferências musicais dos ditos “nobres”. Para exemplificar o preconceito existente nas cabeças de quase todos os diretores do Balneário, no final de década de 60, ou para quem é detalhista no ano em que o América Futebol Clube foi campeão cearense, havia um jogador em seu plantel que destacou-se de forma brilhante por boas atuações. Chamava-se José Deusimar Moreira Pontes, mas era conhecido por “Pinha”, seu apelido. Nosso vizinho e amigo, o Pinha jogou a princípio no Salgado da Gama e depois de uma bem sucedida campanha por aquele clube, foi contratado pelo América onde fez boa figura. Posteriormente foi contratado pelo Maranhão Atlético Clube, onde ficou conhecido como o “Pelé cearense”. Pois bem, durante uma das animadas matinais que o Big Brasa tocava no Balneário, o referido jogador adentrou ao clube, ocasião em que meu pai fez referências elogiosas a ele ao microfone. Pelo ocorrido o Mestre Alberto foi seriamente criticado pela diretoria do clube e pela “nobreza” messejanense, por terem achado um absurdo a menção a um jogador de futebol naquele recinto...

Outra vez, em uma promoção do próprio Big Brasa, realizada no Balneário clube de Messejana, um dos diretores chegou a dizer que algumas mulheres de programa tinham sido vistas durante o evento. Falsa moral, daquele cidadão. À sua colocação, o Mestre Alberto respondeu:

- Rapaz, é o seguinte: desde que não esteja dançando nua, tenha pago ingresso e esteja se comportando adequadamente, não há problema nenhum nisso.  Teimosamente, esse mesmo diretor insistia sempre no triste preconceito, dizendo para o meu pai:

- Não adianta querer popularizar o Balneário, que você não vai conseguir, seu Alberto ... 

Realmente o Balneário não se popularizou, como desejava meu pai e todos nós, e veio a amargar um melancólico fracasso, tempos depois, indo totalmente à bancarrota por conta de suas diretorias locais de “elite”.

A TÃO ESPERADA ESTRÉIA E O PREFIXO -  “AND I LOVE HER”
 
Lembro bem da primeira festa, da estréia do Big Brasa no Balneário Clube de Messejana. Passamos o mês inteiro nos preparando, ensaiando as músicas que fizeram parte de nosso primeiro repertório. No dia “D”, amanheci com muita ansiedade, gerada pela expectativa do evento. Afinal de contas seria uma apresentação pública e teríamos que animar uma tertúlia, responsabilidade e tanto, principalmente para quem nunca tinha participado daquilo.

À noite, todos os componentes do Big Brasa, com a indumentária escolhida para a estréia, esperaram pela hora da festa começar na secretaria do clube, para fazer surpresa do visual do grupo aos presentes. Eu estava sentado em um banquinho, muito nervoso e até mesmo com um pouco de dor de barriga. Quando chegou a hora “H”, ouvimos alguém anunciar a entrada do conjunto. Nos deslocamos da secretaria e finalmente subimos ao palco. Fomos bastante aplaudidos. Eu não enxergava praticamente ninguém. Comecei a tocar o prefixo, And I Love Her, dos Beatles, com a guitarra, mas quase minhas mãos trêmulas não atendiam as notas desejadas. Minutos depois senti mais firmeza, em parte também motivada pelos aplausos do público presente, e aquele impacto da estréia foi sendo aos poucos superado.

Posso dizer que essa estréia foi verdadeiramente estressante para mim, de modo especial por ser eu quem liderava o grupo no que diz respeito a mudanças de músicas e a seqüência do repertório, além da preocupação em tocar o próprio instrumento. Com o tempo todos nós adquirimos mais segurança e aquele nervosismo natural foi gradualmente desaparecendo, o que nos possibilitou enfrentar públicos de qualquer proporção com muita tranqüilidade.

AS TERTÚLIAS NO BALNEÁRIO CLUBE DE MESSEJANA

No Balneário foram inúmeras as apresentações feitas pelo Big Brasa. Nas primeiras, por idéia de meu pai, o Mestre Alberto, durante o intervalo, eu e o Carló saíamos de mesa em mesa, ao redor das mesas, tocando com escaleta e violão as músicas de maior sucesso no momento, sendo que uma delas era “Les Marionettes”, do Herbert Albert.

Além das tertúlias, tocávamos matinais e vesperais. Em 1969 chegamos a tocar um carnaval inteiro no Balneário. Contratamos mais alguns músicos, para instrumentos de sopro e de percussão, e fizemos quatro bailes carnavalescos sem problemas. Nosso desempenho foi plenamente satisfatório e o conjunto atendeu à expectativa geral.

Como sempre o Clube, através de suas diversas diretorias, ao longo da existência do Big Brasa nos convidou sempre para “prestigiar a prata da casa”, ou seja, para tocar mais barato. O Balneário, nem o pessoal de Messejana, com pouquíssimas exceções, nunca nos deu nada, nem uma corda de guitarra. No final dessa nossa primeira experiência com carnaval, o clube pagou apenas uma parte da quantia acertada alegando prejuízo. Tivemos que arcar com o pagamento dos músicos e passar o resto do ano inteiro para receber o restante, no “pinga-pinga”.

 O PRIMEIRO BAILE DE 15 ANOS
 
Foi tocado na Associação Atlética do Banco do Brasil (AABB), em Fortaleza. O Big Brasa para esta ocasião usou um traje especial, com calças pretas, camisas de seda branca, com destaques em bordado, e uma faixa vermelha de veludo na cintura. O conjunto, por iniciativa de meu pai, levou um presente para a aniversariante. O repertório estava bem organizado, vestuário também, instrumental quase completo e o nosso grupo já começava a se estruturar. Muito importante nesse período era o entusiasmo e a boa vontade da parte de todos, na ânsia de aprender mais e progredir no cenário artístico fortalezense. Nessa época a música, a guitarra e o conjunto não saíam de meu pensamento.

Detalhe: na fotografia abaixo, tirada pelo grupo nesse baile, a nossa primeira bateria aparece com os dois suportes do bombo inteiros. Mais adiante, após a quebra do tal suporte, foi preciso a utilização de um transformador velho para escorá-lo.


João Ribeiro da Silva Neto
Do livro "O Big Brasa e minha vida musical" (1999)

O Big Brasa e as funções em Fortaleza


O Big Brasa e as funções em Fortaleza


A falta de um telefone

No princípio não tínhamos telefone próprio, fator que em muito dificultou a procura do conjunto, mas por isso mesmo nós hoje sabemos o quanto o Big Brasa era valorizado, pois mesmo sem telefone os contratos não paravam... O telefone mais perto de nossa casa ficava na residência da Dona Nadir. Era um daqueles “macacos-pretos”, como os radioamadores chamam, que tinham uma pequena alavanca ao lado, a qual acionada fazia soar a campainha de uma mesa telefônica do posto telefônico de Messejana, para que este completasse a ligação para Fortaleza. O sistema, muito precário em vista do que temos hoje, funcionava assim: nós girávamos a tal alavanquinha várias vezes até que alguém do posto telefônico atendesse. Fornecíamos o número a ser chamado e a atendente pedia para que a gente desligasse e ficasse aguardando. Quando ela conseguia, retornava a ligação. Muitas vezes levava uma hora ou mais, pois dependia do número de chamadas que tinha que fazer no momento. O nosso primeiro telefone, de nº 26-40-91, foi adquirido pelo meu pai em um dos planos de expansão da TELECEARÁ. Este telefone funcionava em uma central nova e ligava direto para Fortaleza, sem necessidade da intermediação do antigo posto telefônico. Uma melhoria formidável, portanto.  Com o telefone próprio, mandamos imprimir cartões e outros impressos, para ajudar em nossa divulgação. Até hoje mantenho guardado o meu primeiro cartão de visita, como guitarrista-solo do Conjunto Big Brasa. 

APRESENTAÇÕES EM FORTALEZA

-      15 anos no Bairro de Fátima

Outra das apresentações iniciais do conjunto foi em uma festa de aniversário, em uma residência no Bairro de Fátima. Para vocês terem uma idéia da situação, o conjunto tocava com suas guitarras e bateria e todo mundo cantava sem microfone nenhum, na marra, no sacrifício mesmo. Essa função musical durou mais ou menos umas duas horas. Isso foi no tempo em que o instrumental e todo o grupo cabiam, com algum aperto, é claro, em um jipe 51...

-      Os restaurantes da Beira-mar

Nos primeiros meses, após a estréia, o Big Brasa conseguiu alguns pequenos contratos, ainda verbais, para tocar em restaurantes na avenida
Beira-Mar. Dentre eles o Bayuca, e posteriormente também outros, na Praia do Futuro. Para nós o rendimento daquelas apresentações era insignificante, mas era tudo o que tínhamos. Para não “passarmos em branco” os sábados à noite ou matinais aos domingos, era “pegar ou largar”, como se diz.

Na realidade, ganhávamos muito pouco ou quase nada. O conjunto recebia uma quantia que dava apenas para o pagamento do transporte e para um minúsculo “cachê” para cada músico. Ao final da noite, recebíamos uma refeição completa do restaurante. Pelo menos isso! O “esquema” naquele tempo, para quem estava iniciando, era esse mesmo, não tinha outra saída. O que procurávamos era a promoção do conjunto, aparecer para o público e tornar o Big Brasa conhecido em Fortaleza. Mas, para garotos como nós, todos na faixa de 15 para 17 anos, tudo era novidade...

Nessas tocatas, o conjunto ficava muito exposto ao público, quase sempre sem um local com proteção adequada, com os microfones de vez em quando sendo derrubados por garçons ou clientes, cabos e extensões elétricas pisados e todas as desvantagens de se trabalhar com instrumentos musicais e equipamentos eletrônicos sem estar em um palco. 

Com o passar de alguns meses, nosso trabalho surtiu efeito. Começamos a receber contratos para festas particulares de 15 anos, verdadeira moda naquele tempo, e também de outros clubes. Aí sim, felizmente pudemos deixar de lado os tais contratos com  restaurantes.

-      Tertúlias na Sociedade Bairro de Fátima

Por várias vezes o Big Brasa se apresentou em um clube chamado Sociedade Bairro de Fátima. Quase sempre as tertúlias tinham início com pouca gente, o que desanimava extremamente todo o grupo. Mas depois de algum tempo o pessoal ia chegando, devagarinho e as festas terminavam animadíssimas. Um dos garçons dizia para o  Mestre Alberto: - Aqui é assim mesmo, começa fraco e depois melhora.

Na Sociedade Bairro de Fátima ocorreu um episódio digno de registro. Nunca esqueci aquela noite. Nós estávamos tocando uma tertúlia normalmente e o público naquela ocasião era razoável. De cima do palco vimos uma equipe entrando pelas laterais do salão. Era o pessoal de um conjunto de Recife, com um instrumental bem mais moderno que o nosso. No intervalo ficamos sabendo que o grupo iria fazer um show. Ficamos observando aqueles amplificadores modernos, material muito bom. Esse conjunto iniciou sua apresentação “rachando”. Sabem como é? Quando um conjunto vai se apresentar por pouco tempo, seleciona as melhores músicas, aquelas que causam impacto e “sentam o porrete”. Essas músicas são chamadas de “cavalos de batalha”. Depois que o curto show acaba, quem fica, ou seja, o conjunto que estava tocando o baile, que se vire para superá-lo. Foi uma verdadeira barra. Vimos o pessoal desmontar seu instrumental e depois subimos ao palco novamente para continuar a festa. Reiniciamos com uma seqüência de solos de guitarra, acho que do “The Pop’s”. Estava trêmulo, mas com o tempo o pessoal foi entrando no salão para dançar e o nervosismo acabou. 

-      As tocatas em Mondubim

O Big Brasa também enfrentou paradas difíceis em Mondubim. Tertúlias mal divulgadas, certamente, e população pequena do bairro contribuíam para isso, entre outros fatores que desconheço. O Big Brasa se esforçava muito para animar o salão, eu tentava de tudo, modificando o repertório,  alternando estilos e ritmos mas não adiantava nada.

-      Os programas de Rádio

O Big Brasa participou de alguns programas de rádio levados “ao ar” pela Rádio Assunção, Rádio Dragão do Mar de Fortaleza e Ceará Rádio Clube.
 
O primeiro deles foi na Rádio Assunção, em um programa apresentado pelo radialista Aurélio Brasil. As condições técnicas para a apresentação de um conjunto musical eram mais do que sofríveis. Um estúdio apertadíssimo, de uns 10 metros quadrados mais ou menos, apenas um microfone para captar todo o som do instrumental e das vozes (imaginem só) e a apresentação ao vivo. O operador de áudio desse programa, mesmo se quisesse ou se soubesse, não teria nenhuma condição de mixar um instrumento ou equalizar o som geral do grupo. Saía do jeito que fosse mesmo, tudo na base da improvisação. Nesse dia todos estávamos muito nervosos com a expectativa dessa apresentação. O nervosismo se acentuava quando alguém nos avisava de que o programa começaria dentro de instantes e logo depois a gente via a indicação “NO AR” acender, dentro de estúdio.

Um fato interessante, que nos chegou ao conhecimento muito tempo depois de ter acontecido, foi que durante a apresentação do Big Brasa nesse referido programa de rádio, o nosso amigo Lúbi-Lúbi, de Messejana, que era auxiliar do programa, nos intervalos chegou para nós com a notícia de que os telefones da emissora não paravam de tocar, segundo ele os ouvintes elogiando o conjunto e pedindo mais músicas. O Lúbi-Lúbi fez isso para nos incentivar e até hoje todos nós somos a ele muito gratos, pois o choque não teria sido nada agradável para quem estava principiando. A verdade, nesse caso por ele escondida, é que o pessoal telefonava para pedir para nos “tirar do ar”.

Ainda na Rádio Assunção, mais tarde chegamos a fazer gravações de “jingles” para algumas empresas locais, com o Mauro Coutinho como técnico de som, e a nos apresentar no Auditório, com platéia, também em programas ao vivo, mas com melhores condições acústicas para melhor exibição. No mesmo período participamos de programas semelhantes transmitidos pela Rádio Dragão do Mar de Fortaleza. O apresentador era o Jurandir Mitoso, muito brincalhão e que ficou sendo nosso amigo e incentivador. Nesses programas o Jurandir Mitoso, entre uma música e outra, fazia perguntas sobre o grupo, nos entrevistando sobre a programação para o fim de semana. Sempre nos deu a maior força.

Na Ceará Rádio Clube não houve participação do Big Brasa, mas sim várias gravações individuais, com solos de guitarra feitos por mim, para a escolha de “sinais de tempo” para as transmissões de partidas de futebol, a convite do Mauro Coutinho. O sinal de tempo, para quem não sabe, é aquele rápido som ou efeito que precede o aviso, pelo locutor, de quanto tempo de jogo é decorrido. Usava a criatividade e efeitos com distorção para gravá-los. Lembro-me que alguns deles passaram muito tempo sendo utilizados e quando eu os ouvia sentia um prazer enorme pela autoria.


João Ribeiro da Silva Neto
Do livro "O Big Brasa e minha vida musical" (1999)

O Big Brasa e suas apresentações


O Big Brasa e suas apresentações



NO INTERIOR DO CEARÁ
 
O Big Brasa esteve presente em muitos municípios cearenses, para animar festas de inauguração, bailes de formatura e outros eventos, nos quais sempre foi muito bem recebido. Certas vezes, encontrávamos faixas e cartazes pela cidade ou em frente ao clube local, dando boas-vindas ao conjunto, além da recepção feita pelas fãs e curiosos. As viagens do conjunto eram sempre animadas em razão do alto astral da turma. Depois dos bailes, quando o grupo estava de volta para Fortaleza, elas se tornavam cansativas, pelo percurso e acomodação nos transportes.

MUITOS CONTRATOS, MESMO SEM EMPRESÁRIO

O Big Brasa nunca teve empresário. Muitas festas ao longo de sua existência naturalmente foram intermediadas por empresários, os quais cobravam 10% do valor do contrato. Mas empresário próprio nunca chegamos a ter. 

Os contratos que o Big Brasa conseguia vinham de quem realmente queria nosso conjunto pela qualidade. Para vir até a sede do conjunto não era fácil, levando-se em conta a distância de Messejana para Fortaleza, o  tempo que se gastava no percurso pela antiga BR-116 e as dificuldades de comunicação, pois no início não tínhamos telefone (coisa rara em Messejana nos idos de 1967), conforme já comentamos.

Nas cidades do interior, quando chegávamos, a rotina praticamente era a mesma. Encontrar o clube ou o local da apresentação, retirar todo o equipamento dos transportes e montar tudo, deixando os instrumentos no “ponto de bala” para a festa, com os amplificadores e caixas devidamente testados, guitarras afinadas, tudo pronto, de maneira que a gente pudesse chegar apenas a alguns minutos do início da função. Em seguida nós íamos tomar banho, jantar e nos arrumar para o retorno ao clube. Não podíamos demorar nessas etapas, para não perder o horário. Aí é que vem a responsabilidade. Eu controlava os horários, ficando de olho na turma, para que alguém não se atrasasse. Isso numa boa, sem mandar fazer nada.

As hospedagens sempre foram simples, mesmo porque o interior do Ceará, exceções à parte, não dispõe de bons hotéis ou pousadas. Na maioria dos contratos o conjunto se hospedava em um hotel ou pensão de classificação “sem estrelas”, onde nos preparávamos para o baile. 

Durante toda a existência do Big Brasa consegui manter a liderança sobre o grupo de forma bem democrática, sem nunca precisar alegar ser dono do equipamento ou coisas desse gênero. Na realidade eu nunca me senti dono do conjunto e sim um guitarrista e companheiro de trabalho dos demais integrantes. Nos momentos em que tive que tomar decisões difíceis, em nome do Big Brasa, não hesitei. De forma certa ou errada mais decidi. Quando o assunto envolvia todo o pessoal a turma era consultada, para decidir sempre com base na maioria.

Entre os municípios cearenses que o Big Brasa se apresentou estão: Aquiraz, Aracati, Baturité, Canindé, Cascavel, Caucaia, Crateús, Guaiúba, Horizonte, Ipueiras, Itapagé, Maranguape, Maracanaú, Massapê, Mombaça, Nova Russas, Pacajus, Pacatuba, Pacoti, Pindoretama, Quixadá, Quixeramobim, Redenção, Russas, São Benedito, Sobral, Tianguá, Umirim e Várzea Alegre.

AS VIAGENS PARA FORA DO ESTADO

Os contratos do conjunto para fora do Estado não foram muitos, porém todos eles marcantes. O Big Brasa esteve nos Estados de Pernambuco, Rio Grande do Norte, Maranhão e Piauí. Como músico “free-lancer”, além disso, estive também em Campina Grande, Estado da Paraíba.

No Maranhão, por exemplo, tocamos muitos bailes, em boas temporadas realizadas em Balsas, Carolina e Caxias e São Luís. As fotos seguintes são ilustrativas desse período.

-      As festas tocadas em Caxias
 
Estivemos em Caxias em 1968, para três apresentações, ainda sob a orientação de meu pai Alberto. A primeira na União Artística Caxiense, depois na Associação Atlética do Banco do Brasil (AABB) e por último no Balneário Veneza. Fizemos uma rápida apresentação na residência do prefeito local, que nos recebeu para um jantar. A presença de fãs foi uma constante, inclusive com solicitação de autógrafos e fotografias. Nessa época participavam do Big Brasa o Carló, Adalberto, Edson, Severino, Getúlio e eu.

Nota da imprensa local sobre essa temporada dizia:

“Encontra-se em nossa cidade, procedente de Fortaleza, o vitorioso Conjunto Musical Big Brasa, em excursão artística de divulgação da música moderna. Composto de cinco músicos, todos pré-universitários, membros de destacadas famílias da sociedade alencarina, os jovens intérpretes do iê-iê-iê estrearam ontem em animado baile realizado na sede da União Artística Operária Caxiense, quando tiveram oportunidade de empolgar os numerosos convidados com uma verdadeira apoteose de sons e ritmos, que bem os recomendam como um dos melhores conjuntos do gênero que nos têm visitado. Além de ser equipado com um instrumental dos mais modernos, o conjunto agrada e faz vibrar a todos pela vivacidade que executa o seu variado repertório”.

Imaginem que o Big Brasa ainda usava amplificadores de pequena potência e a velha bateria. Apenas as guitarras já tinham sido substituídas por outras mais modernas, de marcas Gianinni e Phelpa, modelos “Apache” e “Coronado”. 

-      Um verdadeiro “ladrão” na guitarra

Em Caxias, fiquei conhecendo algumas das diversas expressões usadas pelos maranhenses. Durante um dos intervalos das festas que o Big Brasa tocava, um grupo de pessoas estava reunido em torno da mesa reservada para o conjunto, quando ouvi uma delas dizer para a minha mãe, o seguinte:

- Minha Senhora, o seu filho é um verdadeiro “ladrão” na guitarra!

Fiquei prestando atenção no que ele dizia, percebendo que referia-se à maneira que eu tocava a guitarra, principalmente por ter usado, em um improviso, um efeito interessante, tirado com a utilização de um copo, passando pelas cordas, cujo som se assemelhava ao de uma guitarra havaiana. 

O que de outra forma seria uma qualificação triste, para se ouvir a respeito de um filho, para ela, a Dona Zisile, soou como música, pois o emprego da palavra “ladrão”, nesse caso, significava uma pessoa que executava bem aquele instrumento, um “craque” em sua arte. Uma expressão muito usada pelos maranhenses.  

Big Brasa em São Luís do Maranhão

Em 1968 o Big Brasa também foi contratado para tocar três festas em São Luís do Maranhão. Não sei bem como foi feito e nem com quem foi assinado o contrato. Lembro, com certeza, que tocamos no Casino Maranhense, no Lítero Clube e no Grêmio dos Subtenentes e Sargentos da Polícia Militar do Maranhão. Pelo contrato para três bailes, receberíamos 600 mil cruzeiros, mais passagens de avião de ida e volta. Um contrato e tanto, visto que hoje em dia apenas os grupos famosos conseguem contratos assim.

O Big Brasa nesse tempo era composto pelo Carló, Edson Belém, Edson Girão, Adalberto, (guitarristas-bases e vocalistas), Severino (baterista) e eu, “Beiró”, como guitarrista-solo. O Getúlio, meu irmão, mascote e pandeirista, também viajou conosco. Antes de partirmos fizemos umas fotos no Aeroporto Pinto Martins e outras logo que chegamos a São Luís.

Num dos bailes dessa temporada, no Clube dos Sargentos e Subtenentes da Polícia Militar, o organizador veio até nós solicitar que acompanhássemos  uma jovem cantora da cidade, de 15 anos, que tinha uma voz belíssima.

No meio da festa fizemos uma pausa e essa moça ensaiou rapidamente conosco para depois dar um verdadeiro show de voz, empolgando todos participantes. Ficamos sabendo muitos anos depois que essa cantora era nada menos que a Alcione, hoje famosa, filha de um daqueles militares. Ela estava vestida de branco, muito graciosa, e fez uma belíssima apresentação.

O Big Brasa, mais uma vez, em São Luís, teve contato direto com outro conjunto local que logicamente possuía contrabaixo. O contrabaixista nos mostrou o instrumento e até se propôs a nos emprestar o instrumento para a noite, se fosse o caso. Mas não tínhamos ninguém ainda capacitado para isso. E foi tudo daquele jeito, sem contrabaixo mesmo. Imaginem só como deveria ser: aquele som metálico e estridente de três ou quatro guitarras e uma bateria, sem o peso da marcação e do próprio som do contrabaixo.

-      A temporada de Balsas

Foi em 1968. O Conjunto Big Brasa era integrado pelo Dummar, Carló, Marcos Oriá, Severino e eu. Chegamos à cidade e foi aquele sucesso estrondoso.
 
A curiosidade e o desconhecimento de conjuntos faziam que surgissem confusões até mesmo de nomenclatura, quando um cara perguntou ao Mestre Alberto, logo após nossa chegada, se o nome daquele instrumento era “tarracha” ou guitarra. Ele quase morreu de rir do cara e lhe explicou direitinho, que o nome era mesmo “guitarra”. Seguimos do aeroporto de Balsas em cima de um caminhão, que rodou pelo centro e principais ruas de Balsas, acompanhado por outros carros (a maioria jipes), como uma “carreata”. O pessoal ficava olhando aquilo tudo, admirado e acenando das portas e janelas. Tudo aquilo foi realmente impressionante para nós e a responsabilidade pesava mais ainda, depois daquela recepção. Era o Big Brasa o primeiro conjunto com guitarras que iria se apresentar em Balsas. Daí se explicava toda aquela curiosidade.

Um panfleto circulou pela cidade, antes de nossa chegada, anunciando:
 
“A partir do dia 18 do corrente mês se encontrará em nosso meio o conjunto Big Brasa, autêntico representante da música popular moderna. Trata-se de um conjunto de jovens, onde figuram dois balsenses, e que vem alcançando grande sucesso no meio social de Fortaleza. Espera-se contar com o apoio integral do povo balsense para este acontecimento, que cumprirá uma dupla missão: recreativa e cultural”.

O pessoal todo estava entusiasmado com a nossa presença. Dentre os mais animados estavam o nosso primo Bernardino, o Gonzaguinha e o próprio Mestre Alberto. Depois seguiu-se a preparação do nosso “enorme instrumental” no clube. O problema maior era o som para a voz. Havia naquele tempo os “serviços de som” dos clubes, normalmente um amplificador muito fraco e ruim, com pouca potência e caixas de som também de péssima qualidade. na última hora uma das caixas pifou e quem “salvou a pátria”, substituindo um alto-falante defeituoso, foi um padre italiano de quem não lembro o nome. Mas assim mesmo o som não deixava muito a desejar...

-      E cordas de guitarra, tem mais por aí ?

Outro problema que surgiu nessa temporada foi o da falta de alguns acessórios, principalmente cordas para as guitarras. Nós não tínhamos experiência e falhamos ao não levar para Balsas vários encordoamentos de reserva. Resultado: a turma da mão pesada quebrou várias cordas. Desse “time” fazia parte o Dummar, que com suas batidas fortes, como fazia ao violão, bateu o recorde. Eu também não escapava quebrava disso e de vez em quando quebrava uma. Os encordoamentos não tinham a resistência como os de hoje. A solução, embora precária, foi comprar cordas de violão para substituir as das guitarras. Não tinham a sonoridade adequada, mas não tinha saída, foi o jeito utilizá-las. Vale aquele ditado: ruim com elas, pior sem elas. E demos uma verdadeira baixa nos encordoamento de violão no comércio local.

-      A acertada crítica do Leonizar sobre o conjunto

Ainda sobre a temporada de Balsas um fato merece citação com destaque. Soube-se que durante a apresentação do Big Brasa no Clube, na qual a platéia admirada aplaudia, com sucesso total, um músico da cidade (saxofonista), chamado Leonizar, comentou numa roda de amigos que naquele conjunto uma guitarra estava desafinada. Foi levado ao ridículo, por desconhecimento musical e pela empolgação daquela turma. Simplesmente não admitiam a idéia exposta pelo Leonizar.

Esta história espalhou-se por toda a cidade e o pessoal “tirou o couro” do Leonizar. Acontece que o único mesmo que estava com plena razão era o mestre Leonizar, dono de um “ouvido” fora de série, excelente músico, que simplesmente constatou uma grande verdade. Muitas guitarras estavam mesmo desafinadas e era uma confusão geral para acertá-las quando isso ocorria em virtude da precariedade dos instrumentos, das cordas (encordoamentos de violão) e da barulheira total. Esse fato serve para ilustrar que muitas vezes a razão é encoberta pela emoção.

-      Big Brasa em Carolina
 
Motivado pelas apresentações do Big Brasa em Balsas, um grupo de pessoas de Carolina, cidade próxima, que mantinha certa rivalidade com Balsas, logo se mobilizou, no sentido de contratar o conjunto para duas apresentações. Ainda mais, porque esta cidade tinha fama pelo seu bom nível cultural.

Depois do contrato devidamente acertado foram enviados dois pequenos aviões monomotores para nos transportar, daqueles que já levantam vôo “na emergência”, por terem apenas um motor. Imagine só, o Big Brasa viajando em dois aviões. Na verdade aquilo era um verdadeiro luxo para nós!

Ao distribuir nosso equipamento e o pessoal do conjunto nesses dois pequenos aviões, não houve espaço para o banco da bateria, o qual, por não ser desmontável, teve que ficar. Foi a primeira dificuldade.

Durante o vôo, o piloto do avião no qual eu estava, um pouco mais potente e veloz, disse que nós poderíamos logo avistar o outro, que tinha decolado um pouco antes. E com uns dez a quinze minutos ele nos apontou a outra aeronave, que estava voando do nosso lado esquerdo, a uns 300 metros de distância.

Teve ainda a “gracinha” feita pelo mesmo piloto, com relação a uma inocente pergunta feita pelo Getúlio:

- E avião também tem acelerador?

E o piloto prontamente respondeu:

- Tem... E empurrou um dos botões do painel para a frente, diminuindo toda a aceleração. O motor diminuiu a rotação e consequentemente o barulho, e aquele leve aviãozinho começou a perder altura. Só por alguns instantes, porque nós, imediatamente, pedimos para que ele acelerasse de novo.

Chegando em Carolina o Big Brasa foi muito bem recebido, ainda no aeroporto, e em seguida nos deslocamos para conhecer o clube local, testar e instalar nosso instrumental. A curiosidade e a admiração pelas guitarras era enorme, em virtude de ser total novidade naquela época, principalmente em uma cidade do sul do Maranhão. O caso do banco da bateria, que não coube no avião,  foi resolvido com uma cadeira, colocada em cima de um engradado de cerveja, de modo a ficar na altura adequada. O Severino teve que se arranjar desse jeito.

Surgiu um segundo problema: a tensão da rede elétrica oscilava bastante, por ser gerada através de uma usina local. Baixava muito dos 220 volts, prejudicando o funcionamento e a qualidade de som dos amplificadores. Tivemos que arranjar vários transformadores, de diversos tipos e capacidades variadas, cuja instalação ficou uma verdadeira “gambiarra” no palco. Mas o sacrifício para conseguir os tais transformadores, por parte de todos, acabou dando certo, no final de tudo.

Nas duas festas tocadas em Carolina, eu e o Carló fizemos apresentações, durante o intervalo, tocando de mesa em mesa, ao redor da pista de dança, com escaleta e violão. A música escolhida para aquela oportunidade foi “Les Marionettes”, ainda lembro. Fomos muito aplaudidos, o que de certa forma causou admiração ao meu primo Pedro Ivo, que lhe confidenciou ter estranhado “o povo de Carolina bater palmas daquela maneira”, tendo em vista que era de seu conhecimento que vários artistas de renome tinham se apresentado na cidade e não receberam tantos aplausos. Ainda bem que eles “desencalharam” em nossa vez.

Nosso retorno à Balsas  foi em vôo comercial, em uma aeronave bimotor, “DC-3”, da extinta Real Aerovias. Esse tipo de avião, muito utilizado pelas companhias aéreas naquele período, não era pressurizado e ouvia-se o ronco dos fortes motores bem alto, mesmo estando dentro da aeronave. Durante o trecho Carolina - Balsas, um dos músicos do conjunto resolveu dar uma de turista, pensando que o atendimento de bordo era de “primeira”. E perguntou a um comissário de bordo:

- Seria possível um pouquinho de leite?

O comissário, achando muita graça, disse com a maior cara de brincalhão:

- Você está vendo alguma vaca aqui dentro? Tem refresco de limão, lá atrás, pode pegar. Disse ele, apontando para uma torneirinha daquelas. Nesse vôo lembro que a turbulência foi enorme, em razão da baixa altitude, deixando uma parte de nosso pessoal meio atordoada. Na chegada em Balsas muitos amigos e conhecidos estavam nos esperando e nos recepcionaram com muita satisfação.

Foi muito divertido. A temporada valeu a pena por mais uma experiência para todos nós. 

-      Big Brasa em Recife

Em Pernambuco, o conjunto participou por duas vezes das finais dos Festivais Nordestinos da Música Popular, televisionados para todo o Norte e Nordeste. As transmissões via EMBRATEL, muito comuns hoje em dia, naquela época consistiam novidade e motivo de repercussão na imprensa, visto que apenas eventos de grande vulto mereciam tal destaque.  

-      Big Brasa em Teresina

No Piauí, o conjunto se apresentou mais de uma vez em Teresina e Parnaíba. Em Teresina ficamos hospedados na casa do tio Raldir Bastos, que juntamente com sua esposa, tia Hermelinda, nos recebeu de forma excelente e pudemos estabelecer um convívio com todos os meus primos. Em um dos bailes realizados em Teresina, no Clube dos Diários, lembro que durante o intervalo houve um show de um grupo musical da terra. Quando retornamos para a segunda parte do baile o Big Brasa “botou para quebrar”. O pessoal mostrou determinação para superar o tal grupo e conseguimos nosso objetivo.

O esforço para apresentar uma música de boa qualidade mais uma vez foi realizado. Nesse dia, por exemplo, durante uma pequena pausa senti que meus dedos da mão esquerda estavam latejando e doendo muito, em função de solos e improvisos executados e, quem sabe, por causa de encordoamentos velhos de minha guitarra. Tive a impressão que estavam sangrando. Logo que desci do palco, sem olhar para mão, derramei sobre os dedos primeiramente um pouco de guaraná. Vendo que estava tudo normal, apenas doloridos pelo esforço, fiquei mais tranqüilo e segui em frente até o final daquele baile, sem problemas.

-      Shows em Parnaíba, com o Ednardo

Em Parnaíba, fizemos dois shows com o cantor e compositor Ednardo, realizamos um show no SESC, seguido de baile no principal clube da cidade. Na primeira viagem o Big Brasa integrou uma caravana composta por apresentadores e artistas da TV Ceará.

Destaque especial para o show no SESC, onde o conjunto se apresentou de uma forma impecável e foi muito bem recebido por uma platéia calorosa e muitas fãs. Ao final da última música, uma senhora que estava na frente do palco, aplaudindo freneticamente durante o tempo inteiro, disse para mim que queria cortar um pedaço de minha orelha para ficar de lembrança! Já pensaram? Ela devia ser alguma parente do Mike Tyson para ter esse desejo...

Sobre esta mesma apresentação, vale também registrar que o conjunto teve dificuldades para deixar o palco, localizado no auditório, que ficava no segundo andar do prédio, em razão do verdadeiro assédio praticado pelas fãs. Eu e o Lucius, por exemplo, passamos entre muitas garotas que aproveitavam para nos abraçar, beliscar, beijar e pedir autógrafos, gritando freneticamente.

A televisão realmente exercia uma força de propaganda significativa para o Big Brasa no interior do Estado. De forma que podíamos estar com o grupo em qualquer condição, mas sempre fomos muitíssimo bem acolhidos.

-      Em Mossoró, com o “Big”

No Rio Grande do Norte, em Mossoró, o Big Brasa animou diversos bailes, dentre eles o da formatura do Carló como engenheiro agrônomo. Essa festa de formatura da Escola de Agronomia de Mossoró, a ESAM, foi um sucesso total. Havia uma predisposição para que isso acontecesse, em função do Carló ser muito conhecido na cidade (era chamado de “Big”, pelos seus colegas de turma e demais conhecidos). Todos os seus amigos se integraram a nosso grupo e o baile, que contou com presença de um grande número de pessoas, transcorreu dentro da mais absoluta normalidade.

João Ribeiro da Silva Neto
Do livro "O Big Brasa e minha vida musical" (1999)